Foxcatcher

Ao contrário do que sugere o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e os elogios quase unânimes da crítica americana, “Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo” é apenas mediano, pendendo para o bom. O novo longa do diretor Bennet Miller (do ótimo “Capote” e o divisivo “Moneyball”) soa como um esforço friamente calculado para se passar por um filme “de prestígio”, intenso, profundo e relevante. Nas entrelinhas, não é bem assim.

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“Foxcatcher” conta a história real dos irmãos Dave e Mark Schultz, medalhistas olímpicos em luta livre, e o envolvimento de ambos com John du Pont, um milionário aspirante a treinador e possível doente mental. É, enfim, feito sob medida para cravar indicações nas categorias mais nobres do Oscar, como filme, diretor, roteiro e atores. Como os irmãos, Channing Tatum e Mark Ruffalo estão em seus melhores momentos, em um equilíbrio muito convincente de rivalidade e afeto. As atenções, no entanto, estão se concentrando em Steve Carrel, que aparece camuflado sob maquiagem pesada, falando pausadamente e respirando alto. Du Pont é o papel de maior voltagem dramática de sua carreira.  Mas é, também, uma performance vaidosa e autoconsciente, como se o ator se deliciasse com a própria dedicação.

Não se trata de um demérito exclusivo do intérprete. Pesa contra ele o fato de o personagem nunca ser plenamente desenvolvido ou explicado, embora pequenos indícios sejam disparados para todos os lados. Du Pont quer deixar sua marca no mundo, mas também tem mania de grandeza,  que pode ou não ter sido embutida pelo clima de competitividade e a pressão para se obter conquistas (marcas, aliás, indeléveis da cultura americana). Ele também tem uma relação mal resolvida com a mãe e, talvez, alguma frustração em relação à sua sexualidade. É retratado em alguns momentos como um sujeito patético e inadvertidamente simpático aos olhos do público, como se fossemos induzidos a odiar o pecado, mas amar o pecador.

Por sua vez, a proximidade entre du Pont e Mark (Tatum) é encenada como um vínculo de carência e necessidade. Há um paralelo inicial com uma relação de pai e filho e, posteriormente, instantes de insinuação homoerótica entre os dois. Mark é altamente ingênuo, influenciável e manipulável, mesmo sendo um homem adulto e atleta experiente. Para acomodar as conveniências do roteiro, alguns fatos são invertidos, descartados ou comprimidos (sugerindo, por exemplo, um instantâneo vício nas drogas e consequente declínio de determinado personagem).

Cada momento é pontuado com sobriedade: sobram cenas dos personagens sozinhos, em isolamento físico e emocional, que tem pouco – ou nada – a dizer. São passagens individualmente vazias, que, no conjunto da obra, apenas contribuem para atestar o tom sombrio, mórbido e distanciado. Há lampejos de um grande filme em “Foxcatcher” – e Miller provavelmente o teria encontrado se aparasse as arestas e retratasse, com foco e objetividade, as engrenagens fascinantes por trás da relação entre os três personagens centrais.

E Sua Mãe Também

É 1999, e o Partido Revolucionário Institucionalista está prestes a perder a hegemonia política no México após 71 anos no comando. Julio e Tenoch têm 17 anos e estão no hiato entre o colégio e a faculdade. Na ausência das namoradas, ambas de férias pela Europa, eles preenchem seus dias com piscina, maconha e masturbação. Seria difícil encontrar dois espécimes tão alheios à realidade de suas próprias vidas e, mais ainda, à realidade do país onde vivem. Mas essa relação não tardará a vir à tona para que o cineasta Alfonso Cuarón possa expor a sua tese em “E Sua Mãe Também”.

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Em essência, este é um coming of age drama, onde personagens que prolongam as atitudes inconsequentes da adolescência para além do razoável serão forçados a amadurecer. É, também, o retrato intimista de um país com camadas de desigualdades, culturas e tradições. Rodado ao sul da fronteira, sem os censores rígidos dos Estados Unidos e o pudor que ronda as produções dos grandes estúdios americanos, “E Sua Mãe Também” poderia ser ainda a resposta mexicana para chanchadas como “American Pie”. Mas há, aqui, qualidades que extrapolam – e muito – este seara, e que permanecem imunes a uma revisão mais de dez anos depois do lançamento original.

O mote desta jornada de amadurecimento é a presença de Luisa, uma espanhola já na faixa dos 30 anos, casada com o primo de um deles e assolada, ela própria, por um conflito pessoal devastador. Os três se encontram em um casamento. Na tentativa de seduzi-la, os garotos a convidam para conhecer a Boca do Céu, uma praia paradisíaca desconhecida pelos turistas que costumam apinhar o litoral mexicano. Para a surpresa de Julio e Tenoch, a moça aceita o convite. Munidos com cartelas de camisinha, eles partem para um destino hipotético, que talvez seja mero fruto da alucinação de um amigo viciado em cogumelos.

Esta é a deixa para que Cuarón pincele um retrato sutil do México contemporâneo e da dualidade que parece segregá-lo: entre a adolescência e a idade adulta, entre a vida e a morte, entre o país próspero e o país miserável que se esconde sob ele. A câmera de Cuarón, um diretor adepto de planos-sequência, transita sorrateira por essa intimidade. Um narrador onisciente se intromete na história, revelando ora detalhes sobre os três personagens, ora informações tangenciais sobre o local em que se encontram ou as pessoas que conhecem pelo caminho. Ele se demora, por exemplo, sobre um acidente fatal que ocorrera dois anos antes, ou sobre o destino do pescador que lhes serve de guia – fatos que, obviamente, passam despercebidos aos protagonistas.

Os garotos são, tal e qual, representações deste México dicotômico. Julio, de sobrenome Zapata, tem origem humilde, mãe professora e irmã militante. Tenoch recebeu o nome de um líder asteca, nasceu em berço de ouro e é filho de um político (corrupto, vale acrescentar). Os dois são melhores amigos e selaram o vínculo com o juramento dos Charolastras, que inclui promessas como “Pop mata a poesia” e “Não transar com a namorada do outro”. Compartilham de tudo – menos o que há de mais constrangedor. Como o fato de Julio acender um fósforo depois de usar o banheiro na casa de Tenoch, ou de Tenoch levantar a tampa da privada com os pés quando está no apartamento de Julio.

Aos poucos, fica clara a resignação quase velada de um pelo outro – como o filho do patrão e do empregado que cresceram brincando juntos, mas não conseguem ignorar este estigma inconsciente que paira sobre a relação. São sentimentos definidos por classe e impregnados tão profundamente em sua formação que eles mesmos não conseguem admitir ou articular. Em determinado momento da viagem, com os segredos sendo desvendados e as verdades jogadas na cara, o confronto entre Julio e Tenoch descamba para a violência, com Luisa como a mediadora em busca de uma solução pacífica. O epítome se dá quando Tenoch, na representação máxima de seu elitismo, se recusa a se rebaixar (literalmente) para pedir perdão ao amigo – é o mesmo desdém reservado aos zapatistas, tratados com inferioridade pelos autocratas.

Luisa, também ela uma personagem de minúcias soberbas, é a responsável por fazer aflorar estes sentimentos mal resolvidos. No ato final, um encontro altamente erótico regado a tequila os levará a descarregar no sexo as frustrações acumuladas (as cenas de sexo, aliás, são de extrema franqueza). É a maneira particular de Cuarón levantar a bandeira do “Faça amor, não faça guerra!”. Uma solução que, dado o destino dos personagens após a viagem, tampouco soa apaziguadora. Gael Garcia Bernal e Diego Luna, amigos pessoais de longa data, assumem os papeis principais. Maribel Verdu, no auge de seu sex appeal, é a femme fatale mais humana que já agraciou um filme. Já o título “E Sua Mãe Também” é um dos insultos mais pesados em língua espanhola – mas utilizado em um contexto surpreendente, tal como tudo no filme.

Nebraska

“Nebraska” é o melhor filme americano do ano. É melancólico sem ser depressivo e doce sem ser açucarado. O público está vivo diante dele. Há anos eu não comparecia a uma sessão com uma plateia tão conectada com a história que está sendo contada. Não há excessos ou sequências desnecessárias. É um filme que você pode amar por si próprio – como quando éramos crianças e não compreendíamos a complexa engrenagem por trás de sua execução, mas conseguíamos apreciar o produto final a um nível pessoal.

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O diálogo é inteligente, mas não daquela maneira excessivamente modulada, quando um roteirista quer atestar um ponto de vista ou refletir sobre a condição humana. É orgânico, naturalista, e perfeitamente convincente quando disparado pelas figuras que viemos a conhecer. As atuações transcendem o limite da ficção e os personagens se tornam reais para nós. O diretor Alexander Payne observa com sinceridade a vida do americano comum, sem traços de sátira ou paródia – e, aqui, vai um degrau acima do que havia conquistado com “Sideways”, seu filme mais bem resolvido até então. O humor não parece orquestrado por mentes superiores, mas ressona graças à absoluta normalidade das situações.

Esta é, afinal, uma trama simples, comum, e muito ciente de suas intenções. Woody Grant (o veterano Bruce Dern, premiado em Cannes pela atuação) é um octogenário convencido de que ganhou 1 milhão de dólares pela correspondência de uma editora. O filho caçula, Davie (Will Forte), tenta explicar ao pai que tudo não passa de uma estratégia de marketing, mas diante da obstinência de Woody, que decide caminhar até Lincoln, no estado do Nebraska, para coletar o prêmio, resolve levá-lo até lá (apesar das objeções da mãe, interpretada pela excelente June Squibb). Davie vê a viagem como a chance de se conectar com o pai e apreciar sua companhia – Woody, afinal, está caduco e fisicamente debilitado (o que ainda não o impede de entornar garrafas e mais garrafas de cerveja).

Aos poucos, a dinâmica dessa relação vai se delineando: Woody é um alcoólatra incorrigível e, outrora, um pai relapso para os dois filhos; é, também, um veterano de guerra e conhecido entre a família por não recusar um favor a ninguém. Os aspectos menos favoráveis e mais louváveis de sua personalidade vão sendo sugeridos – principalmente, após o desvio de pai e filho por Hawthorne, onde Woody nasceu e foi criado, e onde parte da família ainda vive. Os personagens não parecem criados para servir apenas à metragem do filme – o peso do passado, realçado também pela excelente fotografia em preto e branco, é palpável, como se estivéssemos acompanhando o recorte de alguns dias em vidas que já estão em curso há vários anos.

O roteiro cria um contraponto interessante entre as gerações. Davie é questionador, interessado na história do pai e nas decisões que permearam a sua vida. Woody é taciturno; alguém que não escolheu a vida que levou, mas que foi escolhido por ela. Casou-se porque era o próximo passo natural do namoro; encarou os filhos como consequência natural do sexo. Quando o filho lhe pergunta sobre uma antiga namorada, Woody dá de ombros: “Por que você está  mencionando isso agora?”. Ao visitar a casa onde o pai cresceu, Davie lhe pergunta sobre as expectativas da juventude. “Não me lembro”, Woody responde.

Essa não é uma história sobre sonhos não-concretizados, mas sobre sonhos que sequer chegaram a nascer. É uma história sobre as vidas que parecem contidas entre os estados americanos, muito abaixo da cultura propagada mundo afora. Ali, estão camadas e camadas de pessoas que bebem demais e têm perspectivas de menos, extremamente absortas na pequenez de suas existências. As cenas em que Woody e os irmãos estão sentados diante da TV parecem propor um paradoxo – são vidas já vividas e, ao mesmo tempo, tão desprovidas de vida! Gradualmente, também ficam claras as motivações de Woody em perseguir o pote de ouro no final do arco-íris. O milhão de dólares é sua maneira particular de lidar com as questões inevitáveis de mortalidade e legado – questões essas que ele não compreende, porque nunca antes fora forçado a olhar para si mesmo.

Advém daí o escopo emocional de “Nebraska”, muito enriquecido pelo paralelo com a trajetória de Bruce Dern. Aos 77 anos, com problemas de mobilidade e audição, Dern parece entregar aqui o seu canto de cisne, e é inevitável que Woody pareça uma catarse ao ator. Não se trata de interpretar uma variante de si mesmo, mas de se identificar intimamente com o momento de vida do personagem, numa confluência rara de talento e oportunidade. Aqui, encontrou, nas mãos de Alexander Payne, um veículo extraordinário. Mas este não é um projeto de vaidade para destacar ou servir ao ator. Todos os elementos operam juntos para um resultado sem dissonâncias – um retrato leve do que poderia ser pesado, e nostálgico até do que não deixou saudades.

Blue Jasmine

Jasmine (Cate Blanchett) – nascida Jeanette – é uma socialite de Park Avenue que, após o declínio do marido (Alec Baldwin), condenado por desviar milhões dos investimentos dos clientes, se vê forçada a abandonar a vida de festas em Nova York para se alojar no sobradinho da irmã (Sally Hawkins), em São Francisco – um destino que, para ela, é o fundo do poço. A personagem-título de “Blue Jasmine”, já em cartaz nos cinemas brasileiros, se assemelha em temática e circunstância à Blanche Dubois de “Um Bonde Chamado Desejo”, o clássico teatral de Tennessee Williams. Mas é, também, uma autêntica personagem de Woody Allen – nas neuroses, na resignação e nas doses cavalares de cinismo.

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Logo, Jasmine não apenas despreza o cenário californiano, como também menospreza as escolhas da irmã, que leva uma vida simplória, cria sozinha os dois filhos e está entrando de cabeça em um segundo casamento, não mais promissor que o primeiro. Jasmine tem muita facilidade em identificar tudo o que há de errado com a irmã – mas não é capaz de fazer o mesmo por si mesma, já que, como todos dizem, ela é experiente em “olhar para o outro lado”. Durante anos, fez vista grossa para os negócios escusos do marido e para as suas puladas de cerca – o que se acompanha em flashbacks cada vez mais sugestivos, que lançam nova ótica aos eventos do presente e redefinem constantemente a protagonista aos olhos do público.

Agora, desprovida da identidade que construiu para si, sem segurança financeira ou conforto material, Jasmine é forçada a se reinventar. E, mais uma vez, vai olhar para o outro lado: antes se reinventar como uma nova personagem – uma bem sucedida designer de interiores – do que encarar a si mesma. Mas, se Jasmine não sabe quem é (como se nota pela mudança de nome e pela menção de que tanto ela quanto a irmã foram adotadas), o mesmo não se pode dizer sobre Cate Blanchett, cuja compreensão certeira da personagem se traduz em um desempenho formidável (e, no próximo ano, em mais uma indicação ao Oscar). Em sua companhia, está um elenco igualmente talentoso, alinhado à visão do diretor e capaz de disparar seus diálogos ferinos com afinco – Allen sabidamente não gosta de ensaios, escala atores já ciente do que esperar deles, e raramente roda além do segundo take, esperando preservar a espontaneidade e o imprevisto das primeiras reações.

O cineasta, frequentemente descrito como cínico, demonstra, conforme a sua variação de humor, a fé em alguns modelos de humanidade (mais recentemente, no otimista “Meia-Noite em Paris”, que pregava a importância de desfrutar o presente ao invés de romantizar o passado). Em “Blue Jasmine”, o seu filme com o pé mais fincado no drama desde “Match Point”, retorna aquela convicção menos reconfortante de que, em sua essência, os seres humanos são incapazes de grandes mudanças. Contrariando o arco tradicional do personagem que é enriquecido e transformado pelas experiências, as irmãs de “Blue Jasmine” vivem as suas peripécias para, ao final, estarem mais ou menos de volta ao ponto de partida, tal como as amigas de “Vicky Cristina Barcelona”. A vida aos olhos de Allen é difícil – mas, ao menos, há sempre a opção de rir de si mesmo.

The Bling Ring

Estima-se que mais de três milhões de dólares em bens tenham sido furtados das mansões de uma ampla lista de celebridades entre outubro de 2008 e agosto de 2009. Entre os lesados, estavam Paris Hilton, Megan Fox, Orlando Bloom, Rachel Bilson e Lindsay Lohan. Os meses de investigação levaram aos suspeitos mais improváveis: sete adolescentes de classe média alta sem antecedentes criminais, que registravam as atividades ilegais em animadas postagens no Facebook e se gabavam dos feitos entre os colegas. O grupo, apelidado pela mídia de The Bling Ring, se dividiu durante o julgamento – cada qual buscando o acordo mais vantajoso com a promotoria – e, atualmente, já se encontra em liberdade, após uma pena branda reduzida por bom comportamento.

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Essa anedota curiosa das crônicas policiais de Los Angeles serve de inspiração para o novo filme de Sofia Coppola, “The Bling Ring – A Gangue de Hollywood”. Antes disso, a história já havia sido relatada em um livro e em um telefilme, enquanto os réus da vida real recebiam convites para participar de talk shows e tinham fã-clubes dedicados ao seu nome. Vale lembrar que, na cultura americana, de Jesse James a Bonnie e Clyde, o crime e a celebridade sempre andaram juntos – e, neste caso, os dois conceitos se fundiram de maneira inédita.

A alienação da geração contemporânea, a cultura do excesso, o fácil acesso à informação e o culto à fama são temas que percorrem a trama nas entrelinhas e que serviriam de material inesgotável para teses e experimentos sociais. Nas mãos de Sofia, essas interpretações ficam à cargo do espectador e passam despercebidas pela cineasta – da mesma forma que, em “Maria Antonieta”, as transformações políticas e sociais que abalavam Versalhes não eram notadas pelas dondocas que gozavam de uma vida de frivolidades palacianas. Em ambos os casos – como geralmente acontece na vida -, os personagens estão alheios ao contexto em que estão inseridos e aos fatores externos que os influenciam.

Em “The Bling Ring”, no entanto, a diretora é um bocado mais impiedosa com os seus objetos de estudo: ainda os observa de perto, mas, dessa vez, não os compreende. O caminho adotado aqui é o da sátira – e Sofia, criada ela própria às regalias hollywoodianas, é especialmente crítica para com os seus pares, carregando o suficiente nas tintas para expô-los ao embaraço. Em determinado momento, a personagem de Emma Watson (o nome mais conhecido do jovem elenco) recita o discurso ensaiado de boa moça durante uma entrevista, mas demonstra total desconhecimento de qualquer faceta social quando questionada sobre seus trabalhos de caridade. Sua mãe (Leslie Mann) cria as filhas à filosofia do livro de auto-ajuda “O Segredo”. As situações são encenadas para provocar o riso, tal como a caricatura interpretada por Anna Faris em “Encontros e Desencontros” – com a diferença de que esta personagem, tangencial ao enredo, servia como veículo para observações espirituosas e perspicazes.

Sem meios-tons na sua composição, os adolescentes de “The Bling Ring” são julgados e condenados antes mesmo que possamos conhecê-los, desprovidos das camadas de humanidade que essa mesma amostra recebeu em, por exemplo, “As Patricinhas de Beverly Hills” – filme que retratou a futilidade sem subestimar aqueles que a colocam em prática. O longa de Sofia, por sua vez, deixa a sensação amarga de que seus realizadores se supõem superiores aos seus personagens, com uma dose de soberba equivalente à do reality show “Here Comes Honey Boo Boo”, que convida o público a zombar dos hábitos simplórios de uma família da zona rural. Uma coisa, porém, nem mesmo Sofia pode negar: se os 15 minutos de fama estão hoje à disposição do ridículo, “The Bling Ring” ajuda a alimentar justamente aquilo que condena com um sorriso presunçoso.

Invocação do Mal

Em “Invocação do Mal”, um bom elenco conta com sinceridade uma história não muito sincera: os eventos sobrenaturais que teriam assombrado uma família de Rhode Island na década de 70, e o envolvimento dos investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren na exorcização das forças ocultas. O casal, mais conhecido pela participação no célebre caso que inspirou o livro e os filmes “Horror em Amityville”, atuou por mais de quarenta anos em acontecimentos inexplicáveis – ele, apresentando-se como um demonólogo, e ela como uma médium de sensitividade apurada.

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No terror do diretor James Wan, responsável por “Jogos Mortais” e “Sobrenatural”, não há espaço para controvérsias: aqui, as figuras polêmicas são retratadas sob ótica favorável, e suas crenças, ao invés de incógnitas, são registradas como verdade absoluta. Curiosamente, “Invocação do Mal” não precisa se ancorar no letreiro “baseado em fatos” para provocar um arrepio inconfundível no espectador: como obra de ficção apenas, a trama já é capaz de envolver e intrigar o suficiente. No filão dos filmes de casa mal assombrada, este é o mais satisfatório dos últimos anos.

Ed e Lorraine, interpretados por Patrick Wilson e Vera Farmiga, investigam a residência da família Perron – um casal e cinco filhas que acabam de se mudar para o campo e, desde a primeira noite, percebem ocorrências no mínimo incomuns. A cachorra da família se recusa a entrar na casa para, no dia seguinte, amanhecer morta; todos os relógios travam exatamente no mesmo horário durante a madrugada; portas começam a bater sozinhas. Logo, os sintomas se manifestam também nos moradores: a mãe (a soberba Lili Taylor) descobre hematomas pelo corpo; uma das meninas desenvolve crises de sonambulismo; a caçula passa a falar com um amigo imaginário.

A certo ponto da projeção, os clichês do gênero vão se acumulando – de possessão, bonecos macabros e pássaros voando em bando. Mas, neste caso, “Invocação do Mal” não os utiliza como muletas, mas como ferramentas para movimentar a narrativa, culminando em um clímax irresistível e em uma sensação de medo quase palpável. Os sustos orquestrados pelos movimentos de câmera e a trilha sonora lancinante nos momentos-chave remetem aos terrores da velha guarda de maneira quase metalinguística – mas sem cruzar a fronteira da paródia como, por exemplo, a série “Pânico”. Os créditos finais, com fotos reais dos envolvidos, tentam reforçar o pavor pela certeza, como se confirmasse tudo o que foi visto antes. Mas, em casa, com o filme já digerido na memória, são mesmo as dúvidas que fazem com que “Invocação do Mal” retorne ao espectador antes de dormir.

Avenida Q

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Está de volta a São Paulo o musical “Avenida Q”. Este é o segundo revival da produção, que estreou no Rio de Janeiro e em São Paulo em 2009. Em 2010, ganhou uma turnê pelas principais capitais do Brasil com um novo elenco. Elenco este que se reúne, mais afiado que nunca, na montagem atual, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso às quartas e quintas (21h) e aos sábados e domingos (16h). A temporada popular, com ingressos a R$40, vai até o dia 25 de agosto.

No palco, personagens humanos interagem com bonecos na fictícia Avenida Q, um subúrbio de Nova York para onde vão as pessoas que passam perrengue e não têm muita perspectiva de vida. O protagonista, Princeton (Roberto Donadelli), é um recém-formado em busca do seu lugar no mundo. Na avenida que dá nome ao espetáculo, ele conhece Kate Monster (Marilice Cosenza), uma monstrinha sem sorte no amor. Um grupo de coadjuvantes pitorescos serve como pano de fundo para essa história. O conceito original era simular uma Vila Sésamo, mas voltada para adultos. Ao invés de canções sobre o alfabeto, os bonecos de “Avenida Q” cantam sobre sexo, pornografia, discriminação, homossexualidade e desilusões amorosas, dentre outras mazelas.

As letras foram traduzidas por Cláudio Botelho, que dirigiu a montagem original brasileira ao lado de Charles Moeller. A montagem em cartaz, assinada por Cristina Trevisan, tem leves modificações, especialmente com o acréscimo de piadas contemporâneas (em determinado momento, a prostituta Lucy de Vassa comemora: “O gigante acordou!”). O saldo final é, mais uma vez, engraçadíssimo. Uma boa recomendação para quem vai ao teatro e para quem não costuma ir.

Teatro Sérgio Cardoso
Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista – São Paulo – SP – Tel.: (11) 3288 0136
Quarta e quinta, 21h; sábado e domingo, 16h.
Bilheteria: a partir das 15h (quarta, quinta, sábado e domingo); 15h/19h (sexta).